27.5.08


Kundalini.

Eu gosto desta foto.

Por causa das cores e dos contrastes. O azul do céu, o vermelho do calção, o negro da pele. O menino estava fazendo arte, no sentido figurado; sem saber, acabou fazendo arte, no literal.

Gosto da foto porque vermelho é a cor do primeiro chakra, o da base da coluna vertebral. É o mais ligado às coisas da terra, e onde começa a nossa jornada espiritual. Crescer espiritualmente é também fazer com que a nossa energia vital circule para os chakras superiores, os da cabeça, mais ligados ao plano imaterial. Na foto, o chakra vermelho é jogado para cima, em direção ao céu. É como se o homem, sempre apressado, colocasse o carro à frente dos bois e dissesse “olha, Deus, aqui o que eu sou, me leva para perto de ti”. Correndo desembestado antes de ter o conhecimento, como fazem as crianças. Levando a energia para o alto como se espera, mas não como se deve. O menino olha para baixo não para saber onde cair, mas em despedida, Adeus, Terra, vou para junto de meu Pai. Ou talvez saiba mesmo a dureza do chão que o aguarda. Ainda assim, é um bom começo. Todos os vôos começam na vontade.

Eu também gosto dessa foto porque crianças são simplesmente impossíveis.
Tem coisa mais estripulia do que um guri de cabeça para baixo?
Eu não conheço.




*Em tempo: a foto foi tirada pelos alunos de fotografia da ONG Cipó Comunicação Interativa, projeto Oi Kabum Escola de Arte e Tecnologia. Foi num passeio pelo subúrbio ferroviário de Salvador-BA. Talentosos, os meninos...


8.4.08


Volta de bicicleta.

Borboletas e flores.
Todas amarelas.
No campo, de vasto,
quem vê, se confunde.
Borboletas criam raízes,
e flores ganham os céus.

31.3.08


Autofagias.


Outro dia, uma amiga me contou ter sonhado com um rato feito de queijo, sendo perseguido por um gato. O rato comia a si mesmo enquanto fugia, para não ser devorado.
Deixando de lado os Jungs da vida, fiquei pensando na imagem de alguém que se mata para não sofrer o terror de ser morto. De alguém que foge de seu maior medo e se consome no processo, não só se paralisa, mas também se extingue. E não é exatamente isso que a maioria das pessoas faz o tempo todo? Se você tem algum exemplo em sua própria vida, fique à vontade.
O outro lado é que queijo, qualquer desenho animado pode confirmar, é o que o rato mais gosta. Qualquer criança sabe disso, e você sabe como as crianças sabem das coisas. O rato é feito daquilo que mais gosta, então existe um auto-amor implícito. Ele se ama ao ponto de dar dentadas em si mesmo. Então a fuga, mais uma vez, é auto-preservação ao ponto da autodestruição. Se você conhece alguém que sabota a si mesmo por puro terror do fracasso, fique à vontade.
Mas ainda existe um outro raciocínio. O rato é feito daquilo de que se alimenta. Exatamente como as personalidades. Todos nós somos feitos do que nos alimenta, nosso queijo é o que absorvemos do mundo. E isso, felizmente, é sempre escolha nossa. Se nos alimentamos da raiva que o mundo nos mostra, consumiremos esta raiva, e nos consumimos nela. Se nos alimentamos do amor, ele nos deixa mais fortes. Se somos amor, nos devoraremos a nós mesmos, nutrindo-nos do que somos, retroalimentação de divindade. Se somos aquilo de que mais gostamos, paramos de fugir como o rato. Nossos medos deixam de nos assustar.
E finalmente percebemos: gato não come queijo.

29.3.08



Passos de dança.

Gosto quando duas pessoas vêm na rua em sentidos opostos e param diante uma da outra, se atrapalhando de passar. Então os dois ficam dançando frente a frente, tentando prever a direção e se desviar. O mundo anda tão cheio de gente, é fácil de se ver. A maioria, cabisbaixa ou olhando para os próprios problemas, só percebe o outro quando já estão quase a se tocar.
Tem gente que ri. Eu gosto mais quando isso acontece.
Porque eu sei que, lá no fundo, nas dobras do inconsciente, aquela pessoa captou a lição que a vida camuflou nas dobras do seu dia-a-dia. Sutilmente revelando que além das fronteiras de si, existe o outro. Poeticamente mostrando que não estamos sozinhos e interferimos nos destinos uns dos outros o tempo inteiro − num bailado à revelia pelas ruas da cidade.

Tirando o pó da alma.

Cinco meses sem postar. Atualizando o espírito, atualizando os sonhos. Pausa para recomeçar.
Play it again, Sam.




22.10.07






Na Estrada


De manhã bem cedo, o dia ainda sem acordar.
E eu, olhando o vale, fitando as nuvens
Que pararam para descansar.

4.5.07



Voando em torno da lâmpada.


Eu aqui, às nove da noite, tocando violão para uma mariposa. E me pergunto qual de nós está mais sozinho. A mariposa tem a noite, com suas infinitas estrelas. Eu, o violão e a música, com suas mil canções - mas que eu só sei tocar meia dúzia. A mariposa não tem como se dar conta do infinito que a cerca. Mas disso eu não tenho certeza. Não posso ter certeza também se a ignorância é uma desvantagem. Mas não é por isso que eu acho que ela ainda leva a melhor: enquanto eu presumo compartilhar ao mesmo tempo da noite, da música e de sua inusitada companhia, a mariposa ignora o som, a minha preocupação, e talvez também a noite com suas possibilidades. Aliás, se existem possibilidades para ela, são apenas duas: ser ou não ser devorada. Isso a obriga a viver no limite. É a fórmula dos românticos para uma vida perfeita. Ou para uma morte perfeita. A comida tem mais sabor, o vôo tem mais prazer. Neste sentido, a mariposa tem uma larga vantagem. Para ela, esta noite é tudo; para mim, é mais uma noite em meio a tantas outras. Sua ignorância a torna plena, enquanto a minha consciência só me recorda da minha finitude. Pego o violão e dedico a isto uma das minhas seis canções. À finitude, então. E à mariposa.

Fevereiro de 2005

3.5.07



Acompanhamento.


Em 1979, houve um incêndio na enoteca da escola de sommeliers de Bordeaux, matando um grupo de estudantes aplicados e inutilizando boa parte do acervo de brancos. Uma grosseria, segundo os especialistas, uma vez que churrasco é carne, e, portanto, um tinto seria o mais indicado.

Janeiro de 2005


Nobres intenções.


Édipo era um homem bonito. Aliás, muito bonito. Mas, a despeito da legião de mulheres belíssimas ao seu encalço, Édipo continuava sozinho. Porque acreditava que, se tudo na vida tem um propósito, sua beleza também o teria. Então, imbuído de um sentimento de caridade pouco comum aos homens com sua aparência, fundou a Confraria de São Jorge, destinada a levar alegria a todas as mulheres feias que encontrasse.Se dependesse dele, dragão nenhum ficaria sem seu príncipe. Pelo menos uma bitoca.

Fevereiro de 2005

5.4.07



Adeus, Margarida.


Todos os dias, depois da natação. Meu restaurante preferido. Meu refúgio.

Das mesas azuis com flores amarelas sob os tampos de vidro, ao lado dos postais do mundo inteiro e fotos antigas. Da eterna Bossa Nova tocando baixinho. Das paredes e prateleiras cobertas de miudezas de olhar devagar, lembrando, lembrando.

Das comidinhas cheirosas e saudáveis recendendo a coisa gostosa de fazer o corpo sorrir.

Da proprietária sempre alegre, espalhando doçura sem escolher a quem: todo mundo tem direito a um sorriso, de onde quer que venha.

O Margarida se vai, e eu vou junto, impressionado por realizar o quanto eu gostava de estar lá, mesmo que fosse naquele momento fugaz e corrido da hora do almoço. Maravilhado por perceber como ele entrou, sub-reptício, nos meus dias, na minha vida.

Agora a flor está fechada. Mas suas raízes estão entranhadas no que eu sou, e seu perfume, marcado para sempre na minha memória.

7.3.07



Legado.

Plante uma árvore em meu nome.
Deixe que o carvalho rompa a semente. Deixe que a promessa se cumpra em suas folhas. Deixe que seus galhos apontem o céu, rendendo graças a um milagre sem nome.
Que o que eu fui será o vento que agita os galhos, a dança calma de silêncio e êxtase. Cortado o silêncio pelo barulho das folhas. Podado o êxtase pela presença do homem.
Deixe que a raiz se espalhe em meu nome, virando em força a terra que a prende. Que mais fundo se entranhe para beber do mundo, mas que a sede aplacada faça a planta crescer para mais longe.
Raízes aéreas.
Que a terra é o chão, mas só a folha se alimenta de luz.

27.2.07



O relógio de sol.


Um relógio de sol é uma varanda imprecisa para o tempo. As horas se medem nas sombras. O dia, pelo brilho que se alcança. A velocidade da luz é de um dia por vez, preocupada menos em correr do que em mostrar. A agulha imóvel aponta para cima e para o norte – e o universo se move à sua volta.

Penso se não somos como relógios de sol.

Que passar pela vida é olhar as sombras avançarem e encolherem lentamente. Que o resultado de uma vida também é o brilho que se alcança. Não para o mundo que nos olha pelo que temos, mas para quem nos percebe e nos acolhe na memória. Como a agulha do relógio, apontamos para o alto – e o universo nos empurra para cima. Em direção à luz.


Eu levo minha música para todos os lugares. E vice-versa.

Comprei um daqueles tocadores de MP3.
Escuto no ônibus, no tempo morto que eu usava para ler e que agora não posso mais, sob pena de descolar a retina.
Perdi um hábito, ganhei outro.
Agora eu vou escutando todas aquelas músicas que nunca tive tempo, entulhadas no computador ou em CDs esquecidos.
E que delícia é ir vendo a paisagem mudar na janela, ao som tipicamente brasileiro do Jorge Ben, ainda mais Ben que Benjor. Os carros passando no ritmo dos Chili Peppers. As pessoas alheias à sutileza da vida, transitando na preguiça apaixonante da Lounge Music.
Que eu me seguro para não cantar. Que eu me contenho para não dançar no meio da rua. Que eu levo uma alegria comigo, bem grudada aos ouvidos.
Meu dia, agora, tem trilha sonora.

22.1.07



Acordo de cavalheiros.


O meu esporte é a natação.
E sempre que a piscina está muito cheia, é comum eu dividir a raia com mais alguém.
Pois bem.
Tem um senhor lá que costuma dividir a raia comigo. Tem uns 70 anos, mas não aparenta mais que 60.
E adora disputar comigo.
Antes que vocês formulem qualquer juízo de valor, eu adianto: o velhinho é um páreo duríssimo.
Nós temos praticamente a mesma altura e o mesmo peso.
Ele, entrado em anos, mas nadador de longa data, usa pés-de-pato para ganhar vigor. Eu, fora de forma, com um ano e meio de sedentarismo, vou sem equipamentos.
Qualquer juiz afirmaria que estamos em igualdade de condições.
E todos os dias, das 12:30 às 13:20, travamos nossa batalha, um verdadeiro acordo de cavalheiros.
Tácito, sem palavras.Às vezes é ele quem vence, às vezes sou eu. Nenhum dos dois comemora ou desfaz do outro.
No silêncio sob a água, entendi que, mais importante que dar o melhor de si, é o respeito.

26.12.06



Procurando.


Deixei de ser pai,
parei de ser irmão.
Não sou mais marido,
e em breve,
em breve não serei mais filho.

O que resta de mim?
De quem vou cuidar?
Para quem serei porto?
Onde fica o meu abrigo?

Já que todos se vão,
partirei também.
Como a ilha do Saramago,
à procura de mim mesmo.

15.12.06



Borgeando.


Naquele conto de Borges, o mago sonha um homem inteiro até que ele vire realidade, apenas para que seja consumido pelas chamas irreais de um sacrifício inimigo. Então o mago vai em resgate de sua criação, apenas para descobrir ser ele mesmo irreal, e que outro o havia sonhado.

Alguém deve ter sonhado você, criada, engendrada pétala por pétala, para ser caçadora de sorrisos pelo mundo. Que onde você está, você os descobre, faz aparecer. Que sorriso algum se esconde na sua presença, que o riso vem fácil quando você sorri.

Você não existe, está acima disso.

Você se esconde nas dobras dos meus pensamentos antes de dormir, mas não nos meus sonhos, porque, mesmo que você não apareça nos braços de Morfeu ou brincando com suas areias, eu sempre acordo com a sensação gostosa de ter te abraçado. Acordo com o corpo quente e confortado, a carne ainda duvidando se houve contato. Mas alma, a alma cheia de certeza.

7.12.06



Migrânea.



Um grande sinal de que as coisas não estão indo tão bem é quando você começa a desejar que os dias passem depressa. Você já acorda querendo que o dia acabe, que o tempo voe, que o mês passe, para... para quê? Para que parem de ser tão rápidos e possamos nos dar um descanso.

Descanso. É uma palavra pecaminosa hoje, quase uma heresia, falar em descanso quando a armadilha do estresse nos diz que estar angustiado é o mesmo que estar produzindo. E produzir, todos concordam, é a palavra de ordem. Então, vamos nos estressar, ao menos para parecer que estamos criando algo, gerando negócios, aumentando margens de lucro, atendendo mais pacientes, julgando mais causas, descobrindo curas.

Transformamos o mundo num lugar em que ser temperamental e brusco é ser normal, uma reação em cadeia de brutalidade maquiada do que chamamos de realidade. Onde estar relaxado é um absurdo e, vamos admitir, um verdadeiro trabalho de Hércules. Nos estressamos para ir à banca da esquina, por causa do trânsito que quase nos mata diariamente, por causa dos assaltos, por causa do vizinho mal-educado que não abriu a porta nem deu bom-dia, preocupado ele próprio e estressado com suas coisas, suas cobranças, seus papéis.

Nos estressamos porque não damos conta de cuidar da casa, do trabalho, das crianças e ainda arrumar tempo para ser gente e lembrar de ter algum alívio.

Aliás, a diversão também é estressante: quem vai à praia no final de semana tem que acordar mais cedo para não pegar engarrafamento - mas não adianta -, não acha estacionamento, e quando acha, invariavelmente existe um guardador que cobra os olhos da cara para não arranhar o seu carro, tem as crianças gritando no banco de trás, tem o não achar lugar para sentar na areia, nem nas barracas, tem aqueles cidadãos que insistem que seu gosto musical é o melhor do mundo e tocam suas preferidas a pleno volume, tem a areia do frescobol respingando no bronzeado alheio. Admitimos que isso é descanso, voltamos para casa com a ilusão de que o final de semana foi relaxante. E abraçamos o cotidiano da semana com redobrado desconforto.

É aí que os dias tendem a ser iguais. Uma sucessão de igualdades, como naquelas grades com barras que cercam os prédios de hoje, cada barra igualzinha à outra. Diversão de menino é andar depressa, bem perto, olhando para elas, vendo elas passarem rápido, tremeluzentes, como nos filmes em preto e branco do início do século passado. Assim são os dias, passam depressa, e a gente mal os enxerga, em permanente movimento.

Mas isso cansa. E, lá pelo final do ano, a gente fica desejando que tudo isso acabe logo, para termos a chance, aproveitando a aura de recomeço do reveillon, de dar um boot na nossa vida, apertar o reset – e seja o que Deus quiser.

O erro é esperar. Um ano é um giro da Terra ao redor do sol. Um dia é um rodopio dela sobre si mesma. Rotas elipsóides ou circulares não têm começo nem fim, qualquer lugar é um início. 1o de abril, 1o de julho, 9 de janeiro, tanto faz. O importante é o marco, uma mudança sutil ou uma machadada no cotidiano, não faz diferença. Pequenas ou grandes, mudanças nos fazem exercitar aquilo que nos ajuda a nos distanciarmos dos animais: a criatividade. E isto, meus caros amigos, é estar vivo.

Agora, com licença: vocês, eu não sei, mas EU estou indo almoçar na beira da praia.

17.10.06


Brincadeira.
para Maísa



Outro dia eu vi uma criança na janela de um carro, usando uma daquelas máscaras que têm uns óculos, nariz falso e bigode.
Eu nunca mais tinha visto dessas máscaras.
E a criança ria, deliciada com a brincadeira, olhando para mim, cúmplice.
Como se dissesse "eu sei que você sabe que este rosto não sou eu".
Lembrei de você.
Porque, com você, eu sou com uma criança olhando o mundo, feliz apenas por estar ali. Porque, quando caírem todas as máscaras, é com você que eu quero estar. E porque eu e você somos todos crianças, que sabem que a máscara é apenas uma brincadeira, uma doce brincadeira.
E rimos disso, gostosamente.

6.10.06




Sobre um vôo.


Amanheci pensando em dentes-de-leão.
Aquelas florzinhas que quase não se vêem de tão leves, que balançam, balançam no vento, até que se soltam, para onde a vida manda.
Semente, semear.
Que o vento não é mau, é só o beijo leve que faz a gente acordar.
Que nos faz largar do que sabemos e nos mostra a nossa verdadeira natureza sem peso, que nos leva longe, longe, para fazer o que viemos.
Semente, semear.
Que pessoas são brisas, que nos sopram para longe, enquanto nos agarramos firmemente aos galhos, pobres flores.
Que não notamos que o nosso destino é voar...

28.9.06


Cheiro no chão.


Flores emborcadas no asfalto. Jasmins de pétalas abertas beijando o chão dos homens. O jasmineiro triste de chuva, fitando desolado seu tesouro conspurcado. Olhando para baixo, debruçado. Falido.

Quando a natureza derruba a si mesma é o quê?
Mas não é isso.

Eu penso na chuva abençoando a redenção. No jasmineiro perfumando o caminho dos carros, na suave reverência à cidade que os abraça. O respeito de uma troca, minhas flores pelo teu espaço. Que não há mendicância quando a gente doa.

Que todo gesto humilde também é de grandiosidade.
Pausa para sentir o perfume.