31.7.06


Olhando para cima.


Hoje eu vi uns móveis amarrados num caminhão de mudança.
Bem no meio, um espelho grande refletia as nuvens.
Hoje eu vi um caminhão lembrando as pessoas de olhar para o alto.
Eu vi um motorista levando o céu para passear.

6.6.06


Microverso


Debaixo da folha tem uma sombra verde
Que vira os grãos de areia em pequenas esmeraldas
Feliz é a formiga que carrega este milagre
Tingindo de esperança o dia das operárias.

5.6.06



Aquele dia no Paraíso


- Eu não sei o que está acontecendo com o Adão, Serpente. Tem seis dias que ele não me procura. Eu não sei mais o que faço.
- Ô, Eva, seis dias não é tanto tempo assim...
- Sem televisão? É uma eternidade! Amante, eu sei que ele não tem. Deus não faria isso comigo. Além do mais, eu já contei as costelas do Adão. Nenhuma faltando.
- Será estresse? Deus deu aquele trabalho todo pra ele...
- Dar nome às coisas? E isso lá é trabalho? Passa o dia inteiro só olhando em volta e viajando na maionese. Olha pra cima, e diz: “céu”. Pronto, tá nomeado. Olha pra baixo e diz: “chão”. Maior moleza.
- Não fala em moleza, que atrai.
- É. E tudo com uma sílaba só: cão, lã, flor, mar. Parece que tem preguiça de falar.
- E Deus criou o surfista. Sóóóóó...
- E o tempo que ele demora pra inventar essas coisas? Senta, come uma fruta, conversa com o cão, dá uma caminhada, cochila e, láááá no final do dia, olha pra baixo e diz: “pé”. Faz aquela cara de “dever cumprido”, volta pra casa e dorme.
- E Deus criou o funcionário público.
- Ele diz que é para explorar todas as possibilidades da língua. Queria eu que ele usasse mais a língua comigo.
- Calma, Eva. Tenha paciência com ele. Vocês são tão felizes juntos, formam um casal tão bonito... foram feitos um para o outro.
- Literalmente, aliás.
- E você é linda, Eva, a mulher mais linda do mundo!
- Eu sou a única, Serpente.
- Por isso mesmo. Ninguém de olho no teu macho, olha só que maravilha.
- Mas também ninguém mais para fofocar.
- Hum, talvez seja isso. O Adão também não tem amigos. Ninguém pra fazer farra, contar piada suja, ninguém pra contar que está comendo a gostosa do pedaço.
- E com você, ele não conversa?
- Que nada. Acha que ficar falando com cobra alheia pega mal pra ele...
- Eu me sinto tão sozinha, serpente... não posso nem voltar para a casa da minha mãe. Nem tenho mãe.
- Graças a Deus. Já pensou, Adão com sogra? Duas jararacas no Paraíso, eu não ia agüentar a concorrência.
- Você está do lado dele!
- Que é isso, Eva, não chore... toma, come uma maçã.
- Não quero. Se não fosse essa maçã, eu não estava com esse problema. Não saberia nem o que é isso. Quem precisa de maçã é ele...
- E o anjo Gabriel?
- Já falei com ele, pedi conselho. Mas anjo não tem sexo, não entende patavina dessas coisas. Aquela espada de fogo dele não é de nada. E mais, o cara vive de camisola pra cima e pra baixo! Ninguém é mais coluna do meio do que ele. Um desperdício.
- É, querida, então você vai ter que botar a mão na massa.
- Deus já fez isso. E caprichou no Adão, é isso que dá mais saudade. Ele merece o ão no fim do nome...
- Então capricha na produção, Evinha. Toma um banho, esfrega umas flores na pele, enfeita o cabelo, come uma fruta cheirosa pra melhorar o hálito. Come a maçã pra dar um upgrade na libido, bota o diabo no corpo e vai à luta.
- Então eu vou lá é agora!
- Eva.
- Que é?
- Deixa a folhinha.

31.5.06


Rios Imaginários


Nas horas em que o pensamento escoa
A razão dissolve e a fantasia transborda
Eu sou como um barco à deriva
Pairando, flutuando, navegando
De volta, de volta ao seu abraço.